Era da lua que ela gostava. Se pudesse apagar a luz do dia, sem dúvida o faria. Enquanto houvesse sol, claridade e gente nas ruas, Íris não se esquecia da solidão. Todos os dias, na hora do sol morrer, a moça descia para a praia para ver da areia não a despedida do sol que tanto esperava, mas o brilho na lua, que acreditava trazer em sua luz o calor de quem a amava. A noite era sua melhor amiga e trazia com ela o tão desejado silêncio. Era com a noite que Íris passava a maior parte de seu tempo ativo depois que sua avó sumiu. Deitava-se na areia olhando o céu abrigar a lua ou andava pelas ruas vazias, observando cada detalhe que durante o dia ninguém repara, ninguém nem se preocupa.
Sempre as formigas migravam do formigueiro para um outro espaço aberto. Elas percorriam o caminho com a costumeira organização de fila indiana, que era interrompida ao chegar em certo ponto, onde as formigas desviavam do caminho reto e começavam a preencher um espaço como que delimitado por elas próprias. O espaço era razoavelmente grande e elas se amontoavam de tal forma que tornavam o então gramado verde em uma “poça” preta.
Ficou a observar esse movimento da formigas durante uma semana, a mesma semana em que o homem alto vestido de preto a observava e se aproximava cada vez mais, crendo não ser visto. Certo dia, Íris estava decidida a entender o mistério da “poça” de formigas e antes mesmo delas chegarem, começou a olhar o local e tentar ver o que havia. Começou por escavar a superfície e já encontrou tecidos rasgados e colares. Tudo bem. Depois veio um amontoado de algo semelhante a... “ossos!!”. O espanto de Íris foi tão grande, que nem soube como reagir quando sentiu seu braço sendo agarrado por uma mão forte, a mão do homem estranho que a seguia. Os ossos eram de sua avó. Íris percebeu quando viu em um dos dedos da mão esquerda o anel que sempre usava.
A menina havia descoberto o esconderijo do homem que escondia o corpo de sua última companhia. Agora ele não queria que Íris descobrisse que ele, seu próprio pai, foi capaz de matar sua avó. O pai vivia no sanatório por ter matado sua mulher também. Era maníaco e não conseguia ter pessoas queridas por perto. Depois disso a menina sumiu. Nunca mais se teve notícias daquela que era a única capaz de perceber cada movimento da noite. Daquela que seria a única a perceber que as formigas não iam mais praquele lugar de sempre, mas agora iam para a areia, embaixo da lua que as iluminava todas as noites.
Íris não vive mais para poder ver o brilho da lua surgir ou entender que agora as formigas a seguem.
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