quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um conto de terror

Era da lua que ela gostava. Se pudesse apagar a luz do dia, sem dúvida o faria. Enquanto houvesse sol, claridade e gente nas ruas, Íris não se esquecia da solidão. Todos os dias, na hora do sol morrer, a moça descia para a praia para ver da areia não a despedida do sol que tanto esperava, mas o brilho na lua, que acreditava trazer em sua luz o calor de quem a amava. A noite era sua melhor amiga e trazia com ela o tão desejado silêncio. Era com a noite que Íris passava a maior parte de seu tempo ativo depois que sua avó sumiu. Deitava-se na areia olhando o céu abrigar a lua ou andava pelas ruas vazias, observando cada detalhe que durante o dia ninguém repara, ninguém nem se preocupa.

Nas ruas calmas via de tudo, desde simples formigas percorrendo seus caminhos a mulheres se vendendo a preço de banana. Todo movimento agora ficava mais claro na escuridão. Íris vagava pelas ruas e seus olhos já eram adaptados a pouca luz. Fazia uns três dias e já se acostumara com um estranho vestido de preto que a perseguia, mas este acreditava que não era visto, apenas a olhava de longe, como quem analisa algo curiosamente. Mas Íris não se preocupava mais com os outros detalhes, queria saber apenas das formigas que chamavam sua atenção pela sua grande quantidade e a disposição em certo lugar.

Sempre as formigas migravam do formigueiro para um outro espaço aberto. Elas percorriam o caminho com a costumeira organização de fila indiana, que era interrompida ao chegar em certo ponto, onde as formigas desviavam do caminho reto e começavam a preencher um espaço como que delimitado por elas próprias. O espaço era razoavelmente grande e elas se amontoavam de tal forma que tornavam o então gramado verde em uma “poça” preta.

Ficou a observar esse movimento da formigas durante uma semana, a mesma semana em que o homem alto vestido de preto a observava e se aproximava cada vez mais, crendo não ser visto. Certo dia, Íris estava decidida a entender o mistério da “poça” de formigas e antes mesmo delas chegarem, começou a olhar o local e tentar ver o que havia. Começou por escavar a superfície e já encontrou tecidos rasgados e colares. Tudo bem. Depois veio um amontoado de algo semelhante a... “ossos!!”. O espanto de Íris foi tão grande, que nem soube como reagir quando sentiu seu braço sendo agarrado por uma mão forte, a mão do homem estranho que a seguia. Os ossos eram de sua avó. Íris percebeu quando viu em um dos dedos da mão esquerda o anel que sempre usava.

A menina havia descoberto o esconderijo do homem que escondia o corpo de sua última companhia. Agora ele não queria que Íris descobrisse que ele, seu próprio pai, foi capaz de matar sua avó. O pai vivia no sanatório por ter matado sua mulher também. Era maníaco e não conseguia ter pessoas queridas por perto. Depois disso a menina sumiu. Nunca mais se teve notícias daquela que era a única capaz de perceber cada movimento da noite. Daquela que seria a única a perceber que as formigas não iam mais praquele lugar de sempre, mas agora iam para a areia, embaixo da lua que as iluminava todas as noites.

Íris não vive mais para poder ver o brilho da lua surgir ou entender que agora as formigas a seguem.

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